Mas chega um dia em que percebes que tens de crescer e que a tua almofada não vai estar lá para te proteger sempre. Nesse dia, percebes que é preferível enfrentar a realidade a fugir ao destino. E que mais vale encarar uma verdade suja que acreditar numa mentira fácil. Às vezes, percebes que três metros acima do céu é muito alto. E que quanto mais se sobe, maior é a queda. Talvez apenas possas ver o céu de longe, mas é essa a distância que te permite ver quão belo é. Por isso, deixas de ambicionar aquilo que não podes ter e aprendes a jogar com as cartas que tens na mão. Aprendes outra vez a andar, a dar um passo de cada vez e a levantares-te do chão quando cais. Porque um dia vais perceber que o mundo pode ser um sítio cruel e escuro, onde te perdes. E que as pessoas nem sempre são aquilo que aparentam.
Mas também hás-de perceber que chorar sobre o passado não o muda. Que por mais que te agarres ao avental da mãe, o 'brinquedo' não volta e, por mais que batas com o pé no chão, o vendaval que ele deixou na tua vida vai continuar a despentear-te o cabelo. Um dia vais perceber que permanecer trancada no quarto, a ouvir os ponteiros do relógio passar lentamente, não faz com que o tempo volte atrás. E vais perceber que, quanto mais pensas, menos soluções encontras. As noites em claro não te vão livrar dos pesadelos, eles vão continuar a existir. Mas aquilo que não mata, torna-nos mais fortes. E um dia vais aprender isso também. Que consegues ser superior à indiferença e ao desalento. Que desistir é, dos caminhos que podes escolher, o único sem saída. Que, às vezes, esquecer é o único verbo involuntário. Mas o amor nem sempre é plural e a dor nem sempre é singular. Não estás sozinha no Mundo, a não ser por opção. Só tens de dar tempo ao tempo, mesmo que esse tempo te pareça longo de mais. Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. E as melhores memórias provêm sempre de más ideias. Mas vais ter de aprender a lidar com isso, pois também faz parte do jogo em que te habilitaste a ganhar. E não, não perdeste. Foste eliminada.
Assim, permaneço criança. E hei-de permanecer para sempre, pois as crianças não se medem em estatura, mas em inocência. Apenas deixei de saber como jogar às escondidas com as emoções. Tenho alguns sonhos fora do sítio e uns pesadelos trocados. Sim, e um brinquedo a menos que, assim como ganhei, perdi, mesmo quando pensava tê-lo na palma da mão.
Mas continuo com o mesmo desejo de ser a princesa que nunca me deixaste, arrebatada da torre de um castelo num cavalo branco. E sabes tão bem quanto eu que um dia vais voltar a querer ser o protagonista da história, simplesmente porque sabes também que não há ninguém melhor que tu neste mundo para tomar conta de mim, assim como não há ninguém melhor que eu neste mundo para te dar valor.
E quando esse dia chegar, mais uma vez a criança se meterá na boca do lobo à procura de um último doce. Mas esse doce pode vir envenenado. E aí, princesa só mesmo de pézinho.