'foi a última vez que derramei uma lágrima por ti'
on: 29 de junho de 2011 | 6 opinions ★

A vida não costuma exigir demasiado. Eu é que exijo demasiado da vida. E dou sempre um pouco mais de mim à espera que, em troca, ela me dê um pouco mais também. Mas dar passos contra o vento ou braçadas contra a corrente não é fácil. É exigir sempre o pouco mais que já não tenho para dar.
Ontem tive mais uma noite de insónias. Estava escuro, de tal forma escuro que não me permitia ver onde colocar o pé esquerdo a seguir ao direito. E tropecei. Desastrada como sou, entre a minha sonolência e a minha falta de sono, deixei cair uma caixa qualquer das milhares que tenho no quarto. Feliz coincidência ou golpe do destino, a minha caixinha de memórias e recordações. Não foi preciso coragem para abri-la porque, irremediavelmente, metade do que ela guardava estava agora espalhado no meio do chão. Pensei em guardar tudo o mais rápido possível mas, no mesmo ápice, acendi a luz e sentei-me no chão.
Estava na hora de deitar mãos ao passado. Mas desta vez, sem medos.
Encontrei uma verdadeira colecção de cartas que me escreveste, há uns anos atrás. Uns quantos bilhetes de cinema, uma fita para o cabelo que me deste, as pistas de uma caça ao tesouro que preparaste, pulseirinhas da amizade, pacotes de pastilhas elásticas, bilhetes de comboio ainda húmidos, fotografias e mais fotografias, a letra de uma música que te escrevi, o cd com um vídeo que fizeste, a etiqueta de uma peça de roupa igual, rastos de tardes perdidas em tua casa. Provavelmente, nem tu sabias que tinha guardado tantas coisas, assim como eu, sinceramente, também não me lembrava da maioria. Mas ao pegar em cada um daqueles objectos com o mesmo carinho de sempre e apertá-los contra o meu peito desconsolado, vieram-me à memória como chuva uma quantidade interminável de flashbacks desordenados, soltos, sem sentido, mas tão claros como se de hoje mesmo se tratassem.
Na verdade, fui eu que os perdi quando me tentei esquecer deles. Desordenei-os na minha vida, guardei-os naquela caixa e arrumei-os na prateleira, no meio de tantas outras coisas sem significado, simplesmente para não me magoar mais. Fui criando barreiras à volta do meu coração de vidro, para que não se partisse todas as vezes que alguém o tenta destruir. E desta vez esse alguém fui eu.
No entanto, se algum dia fui egoísta, deixei de sê-lo há muito. Sei que te magoei, nunca penses que o ignoro. Mas não tive a maturidade suficiente para equacionar as consequências dos meus erros e é isso que lamento. Portanto, admito que errei. E, porque admito que errei, peço-te desculpa mais uma vez. E peço-te desculpa mais uma vez, mas sei que não vale a pena. E não vale a pena simplesmente porque errei uma vez só, mas ainda assim errei demais.
Perdi tudo o que construi, principalmente a tua confiança. É incrível como se leva anos a ganhar a confiança de alguém e apenas alguns segundos para perdê-la. Já o sabia, mas passei a sabê-lo por experiência própria. Foi justo, eu sei. Mas, inocentemente, pensei que tudo pudesse ter sido de uma maneira diferente. Hoje, dou-te razão. Talvez as coisas não pudessem mesmo ter sido de uma outra forma, talvez apenas porque foi esta a melhor chave para que pudesses crescer e, ao ver-te crescer, eu crescesse também. Às vezes gosto de pensar assim, não por pensar que é de facto a verdade, mas porque é o caminho mais fácil para encontrar o meu caminho de novo.
As barreiras no meu peito continuam a aumentar. Nunca me julguei, mas arrependi-me muitas vezes. Sempre lamentei, mas já me perdoei muito antes que o fizesses. Afinal de contas, todos erram. Se pudesse voltar atrás, sabes que não faria igual. Mas de que importa agora dizer-to? É tarde de mais, e sempre foi tarde de mais para ti a partir daquele dia.
Há pessoas que cometem milhares de erros ao longo da vida e não são castigadas por nenhum. Eu cometi (apenas) um e fui castigada por todos os que não cometi. Mas a vida é mesmo assim. E, se pensas que não te compreendo, talvez te compreenda bem de mais. Não pela facilidade com que afirmas que te magoei, mas por ter perdido um terço de tudo o que tinha. É por isso que me sinto assim, desfragmentada a olhar para todos estes fragmentos da nossa vida, guardados dentro de uma caixa a ganhar pó.
Escrevo-te agora, porque sei que não vale a pena perder cinco minutos da minha vida a encarar-te mais uma vez e a tentar dizer qualquer coisa que faça sentido na tua cabeça, pois isso provavelmente nem aconteceria. Desta forma, sempre me expresso melhor. E sei que dou o valor às palavras que tu já não darias. Espero pelo menos que guardes tantas boas lembranças quanto eu. Ou apenas metade, mas que guardes o que vale a pena guardar. Quanto ao resto, sei que não esqueces, mas espero que consigas filtrar.
Se ao menos pudesse ter enxugado algumas das tuas lágrimas. Se ao menos me tivesses avisado antes que seria assim. Mas tão iludida quanto eu, não me deste sequer a oportunidade mágica de te provar quão verdadeira era a minha amizade por ti e como estava disposta de abdicar de tudo, ali, naquele momento, para ficar contigo para sempre. Parece que o 'para sempre' não durou nem mais um instante. E, ali, naquele momento, apenas te pude mostrar quão frágil era o meu coração.
Dando então um pouco mais de mim, esperei que, em troca, a vida me desse um pouco mais também.
Mas com um pássaro não mão, deixei dois a voar.
E, ao vê-los partir mais uma vez na minha memória, guardei todos os pedaços de ti naquela caixa,
derramando uma última lágrima.