Prometi-te que não ia chorar, mas não consegui. Foi inevitável, desculpa. Perder alguém consegue ser doloroso de mais, mesmo para os mais fortes. Forte nunca fui, confesso. Mas, por momentos, tentei convencer-me de que era. Consegui, por pouco tempo. Recordei o que passámos juntas com um sorriso e também com um sorriso lamentei o que não chegámos a passar. Às vezes, a vida troca-nos as voltas e abandona-nos a meio do percurso, mesmo quando ainda temos vontade de caminhar. Às vezes, não nos deixa dizer o que não foi dito, fazer o que não foi feito, sentir o que não foi sentido. Simplesmente porque às vezes a vida não nos dá tempo e, se o dá, não sabemos aproveitá-lo. Nunca vou esquecer a última vez em que te vi, com o olhar profundo e marcado que já não era brilhante, mas que, ainda assim, brilhava por me ver. Nunca vou esquecer todos os conselhos que sussurraste ao meu ouvido e todos os segredos que me confiaste, até porque eras das poucas pessoas que me considerava uma mulherzinha, mesmo com os meus sete anos mal contados. Nunca vou esquecer o facto de teres sempre acreditado em mim e de te orgulhares não só daquilo que eu era, mas daquilo pelo qual me esforçava para ser. Mas não só nunca me vou esquecer, como nunca me vou perdoar por não ter tido a maturidade suficiente para te mostrar, não só com acções, mas com palavras, o quanto gostava de ti. Sei que te mostrei à minha maneira, não foi a melhor decerto, mas foi a minha. Fi-lo como qualquer criança o faria e como muitos adultos não fariam, pelo menos com a mesma naturalidade. Só pedia que me tivesses visto crescer mais um bocadinho, para perceberes o quão parecida contigo me tornei. Mas, pelos vistos, foi pedir de mais. Mais uma vez não deu tempo. Naquele dia, tinha o relógio no pulso e sentia cada segundo passar como se só restasse mais um. Foi então que te dei a mão, a apertei com força e me despedi de ti, em silêncio, pois já nenhuma palavra era suficiente para apagar o medo que nos separava. Desde aí, nunca mais usei o relógio. Não tenho noção das horas, sou uma cabeça no ar e chego sempre atrasada, é verdade. Mas também não tenho consciência de quanto tempo o tempo me rouba e, sinceramente, prefiro assim. Passaram dez anos. Hoje, compreendo que não faria sentido estares aqui, talvez apenas pelo facto de ter aprendido muito com a tua ausência. No entanto, todos os dias tenho a tendência de desejar-te “sonhos cor-de-princesa”, tal e qual como me fazias antes de adormecer ao teu colo. Obrigada, foste a melhor avó do mundo. Se existem anjos, acredito que sejas um deles. E sabes porquê? Porque já aqui o eras.